Alfa Romeo Brera JTS 2.2
Vale quanto pesa: Bonito e bem equipado, o Brera foi desenhado para encarar rivais alemães com sofisticação e esportividade.
Por Fernando Valeika de Barros, de Balocco (Itália)
Diz a história que, quando os executivos da italiana Alfa Romeo convidaram o projetista Giorgetto Giugiaro, da Italdesign, para desenhar o novo cupê da marca, o pedido era que o modelo fosse envolvente como Brera, uma região histórica de Milão freqüentada por artistas e intelectuais. Meses depois, no início de 2002, Giugiaro apresentou o ousado protótipo Brera no Salão de Genebra. A versão definitiva retoma alguns dos bons princípios desse protótipo, especialmente em relação à estética. Fomos conhecê-la em Balocco, o campo de provas onde são desenvolvidos os carros da Alfa Romeo, a meio caminho entre Turim e Milão, no norte da Itália.
Mesmo parado, o Brera chama atenção pelo belo estilo. Segundo Giugiaro, sua proposta foi fazer um carro novo, mas que guardasse grande identidade com modelos clássicos da marca italiana. Ele conta que o vidro traseiro, por exemplo, foi inspirado no do Giulietta Sprint (veja na pág. 92). O longo capô, com linhas que convergem e destacam o cuore, com o escudo da Alfa Romeo, deriva dos Alfa dos anos 1950. A diferença é que o traço foi atualizado e incorporou elementos modernos, como o grupo óptico dianteiro. As linhas que dão impressão de dar músculos ao carro e detalhes como os quatro escapamentos, as rodas esportivas de liga leve, os largos pneus e a traseira truncada servem para realçar o caráter esportivo do carro.
O cupê italiano está longe de ser um carro compacto. Ele mede 4,41 metros de comprimento, com largura de 1,83 metro e entreeixos de 2,52 metros. Apesar desse tamanho todo, o Brera comporta com conforto apenas dois passageiros, acomodados nos bancos esportivos com regulagem elétrica de altura, lombar, de distância e de inclinação do encosto. Bem equipado, o Brera tem ar-condicionado, rádio com CD player Bose e sensores que acionam automaticamente faróis e limpadores do pára-brisa. Seu interior tem um quê do sedã Alfa 159, de quem herdou o belo painel. Seu porta-malas comporta 300 litros e carrega mais bagagem do que os esportivos costumam fazer. E, uma vez rebatido o banco traseiro, essa capacidade dobra. Um minúsculo defeito é que só dá para abrir o porta-malas através do controle remoto da chave ou apertando-se um botão no interior do carro, que fica meio escondido. A visibilidade traseira não é boa, mas em compensação os novos cupês da Alfa Romeo são equipados com sensores nos pára-choques que emitem aviso sonoro à medida que o carro se aproxima de um obstáculo.
Sob o capô, o Brera que dirigimos em Balocco tinha um motor de quatro cilindros com potência de 185 cavalos e torque de 23,4 mkgf. Capaz de chegar, segundo a fábrica, a 222 km/h, é a versão menos potente do cupê italiano. No mercado europeu, quem lhe faz companhia é uma macchina ainda mais invocada, com os mesmos traços, mas com motor V6 de injeção direta de gasolina e 260 cavalos. O único problema dos Brera, seja o que experimentamos, seja o V6, é que esses modelos têm de fazer frente a um inimigo literalmente de peso. O cupê que testamos, por exemplo, tem quase 1500 quilos. A versão equipada com motor V6 pesa cerca de 300 quilos a mais, 150 dos quais ficam por conta da tração integral, recurso que não está disponível no quatro-cilindros, que tem tração dianteira.
O corpanzil compromete o desempenho que as linhas do esportivo insinuam. Na aceleração de 0 a 100 km/h, por exemplo, o modelo com motor 2,2 litros que dirigimos precisa de 8,8 segundos, de acordo com a Fiat, uma marca que o deixa a meio caminho entre o desempenho de um esportivo e o de um bom carro de passeio. O sobrepeso também se reflete diretamente no consumo. Dados fornecidos pela montadora indicam que o Brera percorre em trechos de cidade 7,6 quilômetros com 1 litro de gasolina, o que significa que não é um campeão da economia. Na média, crava 10,6 km/l, o que lhe garante uma autonomia de 700 quilômetros, graças ao grande tanque.
Protetor de joelhos
A esportividade é mais notada em outros detalhes, como o botão no console que serve para dar a partida, o conta-giros do mesmo tamanho que o velocímetro, o engate curto do câmbio de seis marchas e a suspensão mais rígida e esportiva que macia e confortável. Ainda que tenha que lidar com o sobrepeso, a dirigibilidade do Brera é notável. Até mesmo em situações mais extremas, como pudemos constatar em curvas mais sinuosas na pista de Balocco. Com a ajuda de um sistema eletrônico antiderrapagem, dá para entrar em curvas um pouco acima do que o bom senso recomendaria e ainda assim sair ileso.
Outros pontos altos logo perceptíveis no asfalto de Balocco foram a firmeza da direção, assistida eletronicamente, a precisão dos engates do câmbio manual e a boa atuação do sistema de freios, com ABS e distribuidor eletrônico de frenagem. Outro dispositivo, chamado VDC (sigla em inglês para Controle Dinâmico do Veículo), entra em ação no caso de perda de aderência de uma das rodas para corrigir a trajetória do veículo. Em situações mais extremas, como uma derrapagem provocada pelo piloto de testes da Alfa Romeo, deu para ter idéia de como o equipamento pode ser útil em emergências. Para casos em que nem a perícia ao volante nem os dispositivos eletrônicos consigam evitar uma colisão, o carro tem sete airbags, entre frontais, laterais e uma cortina para impedir que os estilhaços atinjam os passageiros, além de uma bolsa que amortece o choque dos joelhos do motorista contra o painel.
No mercado europeu, o Brera é vendido por 33900 euros na versão 2.2 JTS e 43000 euros com o motor V6. Nessa faixa de preço, ele concorre com modelos como os cupês BMW da Série 3 ou o Mercedes-Benz CLK, entre outros. Antes que os batimentos cardíacos dos fãs do cuore sportivo se acelerem, é bom frisar que, pelo menos por enquanto, a Fiat, que é dona da marca Alfa Romeo, não tem planos de trazer o Brera para o Brasil.